Julio Cesar Vieira Gomes, então comandante da Receita, foi nomeado adido na capital francesa um dia depois de investida de auxiliar do presidente no Aeroporto de Guarulhos. Haddad revogou.
O homem que chefiava a Receita Federal quando o governo Bolsonaro tentou fazer entrar ilegalmente no país joias de R$ 16,5 milhões para a ex-primeira-dama Michelle foi indicado para um cargo em Paris um dia após a investida.
Julio Cesar Vieira Gomes, que comandava o Fisco na ocasião, foi nomeado adido da Receita Federal na capital francesa em 30 de dezembro de 2022, dia seguinte à ida de um auxiliar do presidente até o Aeroporto de Guarulhos (SP) para recuperar as joias, que ali foram apreendidas pelos fiscais por terem entrado no Brasil sem serem declaradas pelo portador - um integrante de uma comitiva oficial do governo brasileiro à Arábia Saudita.
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| Júlio Cesar Vieira Gomes |
No mesmo despacho, Mourão nomeou como adido da Receita Federal nos Emirados Árabes Unidos outro auditor-fiscal suspeito de agir em favor dos interesses de Bolsonaro: José de Assis Ferraz Neto, então subsecretário-geral da Receita que teria pressionado o corregedor do órgão a não investigar a quebra de sigilo fiscal de desafetos da família do ex-presidente da República.
Vieira está diretamente envolvido no episódio das joias que iriam para a primeira-dama. No relato de assessores de Bolsonaro ouvidos pelo blog, Julio falou com Bolsonaro no final de 2022 para fazer uma última tentativa de reaver as joias. Julio falou com o próprio presidente - e, só depois disso, foi que Mauro Cid, ajudante de ordens, enviou um ofício à Receita informando que o sargento da Marinha Jairo iria ao Aeroporto de Guarulhos.
'Carteirada' e plano de 'exílio'
No dia 29, o próprio Viera Gomes, chefe da Receita, tentou falar com o responsável do órgão que estava no turno em Guarulhos quando o sargento enviado pela Presidência da República para reaver as joias chegou ao local.
Mas Vieira Gomes, segundo o blog apurou, não conseguiu falar com o representante da Receita no local, frustrando o governo Bolsonaro.
Vieira, portanto, atuou diretamente em conjunto com a Presidência para dar uma "carteirada" e recuperar as joias, atropelando os ritos, na visão de fontes da Receita ouvidas pelo blog.
As mesmas fontes enxergam nas adidâncias um plano de "exílio" para a cúpula da Receita, ligada a família Bolsonaro, por temer revelações de eventuais irregularidades pelo governo Lula.
A nomeação de Vieira foi cancelada por Fernando Haddad, ministro da Fazenda de Lula.
As joias poderiam ter entrado no país legalmente como presente para Michelle - mas, para isso, a ex-primeira-dama teria de pagar um imposto milionário. Também poderiam ter entrado como presente de Estado - sem tributação, mas passariam a ser propriedade do Brasil, e não da família Bolsonaro.
'Rota de saída'
Os postos de adidos no exterior criados em 26 de dezembro e distribuídos para a cúpula da Receita Federal no último dia de 2022 causaram espanto na própria Receita e geraram reação da Unafisco Nacional, associação dos auditores fiscais da Receita, à época.
Em nota, a Unafisco chegou a dizer que "nunca antes se viu uma atuação institucional tão distante dos princípios da impessoalidade, da moralidade e do interesse público". "Tais dirigentes atuaram com objetivo clarividente de criar cargos para si mesmos, como rota de saída em função da troca de governo."
Na Receita, a avaliação é a de que nunca antes um governo exerceu uma pressão tão grande sob um órgão, como foi feito na Receita. Fontes afirmam que Júlio Cesar Vieira Gomes é um nome da família Bolsonaro, alçado ao cargo por influência do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Fonte: g1.globo.com
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